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Gabriela Vallim: "Considero-me alguém que luta pelos direitos das mulheres, em especial das negras. Sem rótulos"

Jovem e cheia de ideais, a jornalista foi nomeada há dois meses como coordenadora de Políticas Para Juventude da SMDHC


 

Vinte e um anos. Mulher. Negra. Esta é Gabriela Vallim, nomeada no final do mês de maio pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), como coordenadora de Políticas Para Juventude da SMDHC (Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania).  

Moradora da periferia, a jovem de 21 anos, tem como desafio articular ações para a juventude, pautadas no Plano Juventude Viva, em especial o Programa Bolsa Trabalho e a elaboração de um Plano Municipal de Juventude, transformando as políticas públicas de juventude em políticas de Estado.

Idealizadora do “#15contra16” – Festival Musical Contra a Redução da Maioridade Penal, que resultou em uma campanha com diversas personalidades sobre o tema, em 2015 Vallim, que é formada em Comunicação Social - Jornalismo foi a representante do Brasil na Conferência Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) nos Estados Unidos. Na ocasião foram abordados os 17 objetivos do Desenvolvimento Sustentável pautando a violência sofrida no Brasil pela juventude negra.

Recém-chegada dos EUA, onde representou o País no “Games for Change” em Nova York e do “Bloomberg” em Washington, a convite da UNESCO e do PhD Prof. Schwartz, representante da “Cidade do conhecimento” projeto realizado na ECA (Escola de Comunicação e Artes) da USP (Universidade de São Paulo) e curador do projeto Portal da Juventude realizado pela Coordenadoria de Politicas pra Juventude de São Paulo em parceria com a Fusp (Fundação de apoio a cidade de São Paulo), conversou com o Portal Mulher Executiva.

Confira o papo com a jovem líder:

Portal Mulher Executiva: Conte um pouco da sua trajetória até chegar à coordenadoria?

Gabriela Vallim: Desde os 15 anos de idade sou do movimento negro da cidade de São Paulo. Mas, com 12 anos comecei a atuar com comunicação em um projeto denominado “Imprensa Jovem”, programa da Secretaria Municipal de Educação. Então, sempre fui muito envolvida com as questões sociais, em especial, quando o assunto é a negritude.

Em 2013 passei a compor o quadro da coordenação como um dos 25 articuladores do “Plano Juventude Viva”, que visa a criação de projetos para reduzir a violência contra a juventude negra na Capital Paulista. A maioria dos participantes é formada por jovens negros, que têm trajetória nos movimentos sociais. Lembrando que São Paulo é uma das poucas cidades brasileiras que aderiram ao plano federal.

Então, o papel da coordenação de juventude é fazer a mediação entre as Secretarias Municipais e Estaduais para que as politicas públicas da cidade tenham um recorte jovem, incluindo gênero e raça.

Portal Mulher Executiva: Você já conseguiu enxergar quais serão os seus desafios dentro da coordenação?

Gabriela Vallim: O fato de ser uma liderança jovem e negra já é um desafio por si só, além das questões de gestão dentro da máquina pública e das relações interpessoais, que somadas trazem às minhas mãos um desafio imenso. Mas, o maior de todos é construir um plano de políticas municipais para a juventude paulistana e transformar este trabalho em algo estadual, para que seja algo deixado e passado independentemente de qual gestão está no poder.

A coordenação de juventude já nos trouxe muitos avanços. E, pautar o modelo adequado para todas as transformações que os jovens vivem, juntamente com os movimentos sociais e, assim, criar programas para abordar a pluralidade dentro da realidade juvenil, sem deixar de lado os programas e ações já existentes.

Portal Mulher Executiva: Sobre gênero e raça: você é mulher, negra, jovem e moradora da periferia. Diante disso, qual a sua avaliação da posição da mulher como líder?

Gabriela Vallim: A mulher é fundamental dentro da sociedade. Grande parte das minhas referências é africana. Por isso, vejo a figura matriarcal com muita importância, pois o sexo feminino tem uma sensibilidade e um olhar diferenciados/amplos para as coisas. Assim, conseguimos fazer uma análise de variados parâmetros.

No caso das politicas públicas, como mulher, negra e da periferia, sempre pensamos no usuário das medidas. Por isso, conseguimos ter uma visão que ainda não existe da maneira que deveria ser dentro do serviço público. O motivo?  Temos uma composição social e uma história de um país que contou com quase 400 anos de escravidão. Desta forma, a nossa presença nesses espaços altera as relações interpessoais, já que muitas não estão acostumadas a ser lideradas por uma mulher negra.

Portal Mulher Executiva: Há certo período percebemos a presença marcante do feminismo. Você se considera feminista?

Gabriela Vallim: Considero-me alguém que luta pelos direitos das mulheres, em especial das negras. Sem rótulos. Possuo uma referência a partir da afrocentricidade e como pan-africanista, meu espelho são as mulheres negras, que trazem uma história de luta para além de um movimento.

Diante disso, entendo o feminismo como um instrumento importante de empoderamento das mulheres, como outros existentes. Então, não me nomeio como feminista. 

Por Carla Caroline